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apresentação do estudo sobre ambientes cênicos, desenvolvido pela ciateatroautônomo, dentro do projeto de intercâmbio com Irmãos Guimarães / Núcleo Resta Pouco a Dizer, e a partir do romance “Cem anos de solidão” de Gabriel García Márquez.

mostra rumos itaú cultural – são paulo – agosto/2011

 

 

 

 

 


Segundo Encontro Presencial: perspectiva Brasília.

A produção brasiliense para o segundo encontro presencial entre a Ciateatroautônomo e a Cia Irmãos Guimarães deu-se em meio a demandas e imprevistos característicos de um fim de semestre acadêmico. As dificuldades conhecidas para a realização do encontro entre os grupos que intercambiam revela, em um nível mais abrangente, os desafios enfrentados quotidianamente por quem investiga e realiza teatro no Brasil.

 Assim, em 17 de julho, domingo, integrantes da Ciateatroautônomo desembarcaram na cidade para a demonstração da segunda etapa de pesquisas e experimentações que ocupou a galeria de artes visuais da Faculdade de Artes Dulcina de Morais (FADM), bem como seu estúdio fotográfico e um amplo mezanino envidraçado, ambientes não integrados, que permitiam a imersão dos visitantes em cada demonstração, com tempo para comentários e reflexão no percurso mesmo que as separava.

A ressignificação estética do amplo universo de temas desvelado pelo romance Cem Anos de Solidão, de Márquez, foi a opção do grupo brasiliense quando da ocasião de sua proposição. Esta escolha permitiria o prosseguimento das investigações até ali empreendidas, e o segundo encontro presencial surpreendeu ao enfatizar a interface da performance art com os recursos audiovisuais em ambas as proposições.

A “passagem do tempo”, de diferentes maneiras expressa pela Ciateatroautônomo, e o “esquecimento” evidenciado na apropriação da Cia Irmãos Guimarães se somaram à contaminação de um coletivo por traços estilísticos predominantes no outro. No primeiro encontro, público e artistas assistiram à evolução performática em uma instalação, bem como a visualidade posta em relevo, que apontavam a assimilação – ou “contaminação” – da Ciateatroautônomo frente a especificidades que sempre caracterizaram as obras de Adriano e Fernando Guimarães; por sua vez, a radicalização da performance em sua interface com a vida dos intérpretes, o depoimento pessoal, a experiência individual foram vivenciadas por atores e diretores da Cia Irmãos Guimarães, a partir da inspiração no grupo parceiro.

O estudo das obras e dos discursos artísticos e políticos de performers icônicos do século XX nortearam o caminho do grupo brasiliense. A partir do levantamento, vivências foram concebidas e realizadas pelos intérpretes da Cia Irmãos Guimarães. Angélica Liddell, Élida Tessler, Francis Alÿs, Joseph Kosuth e Sophie Calle, foram antropofagicamente libados, gestando atualizações práticas de seus olhares sobre o mundo. Deste modo, viagens a outros estados, estudos filosóficos, visitas a apartamentos vazios e tentativas de contato com indivíduos igualmente desconhecidos, emergiram da convergência entre os pontos de vista dos autores estudados com as urgências pessoais de intérpretes no momento atual, em uma intersecção criativa.

A releitura alçou o sujeito ao lugar daquele que interpretava; mais que uma representação, o posicionamento e desvelamento de quem cria foram projetados ao primeiro plano. A prática é intrínseca à linguagem da performance, esse locus de enunciação diferenciado do período vintecentista; na Cia Irmãos Guimarães, de artistas oriundos da tradição teatral, a forma acabou delicadamente desestabilizada.

Em teoria, as experiências realizadas pelos atores poderiam ter sido concretizadas pelos performers estudados. Mas emergiu do olhar dos artistas mais jovens sobre seus antecessores. Os depoimentos registrados foram verdadeiramente enunciados por aqueles autores, e assim se estabeleceu a tensão entre vivência e representação.

A galeria de artes abrigou os rastros desse processo. Vídeos, fotografias, documentos, objetos, indumentária, foram expostos, acompanhados por legendas que reconstituíam, fragmentariamente, trajetórias e discursos.

A Ciateatroautônomo, em um espaço fechado e inteiramente neutro, no qual repousava o corpo inerte de um ator, pareceu sintetizar sobre um “quadro” – o corpo nu que era também uma “tela” onde se projetavam outros corpos, todos desnudos – múltiplas narrativas. Depoimentos reais gravados em áudios eram acessados individualmente por cada espectador, por meio do uso de fones de ouvidos em aparelhos móveis; a audição de diferentes gravações tornava a multiplicação exponencial – narrativas sobrepunham-se a narrativas, e estas a outras, em um mecanismo de desdobramentos infinitos.

O terceiro momento do encontro presencial contou com o debate aberto ao público, no qual os processos composicionais foram analisados, juntamente com as dinâmicas das companhias, suas realidades de trabalho, as mútuas influências então existentes, e os desbravamentos propiciados pelo projeto Rumos Itaú Cultural Teatro. O desfecho desse intercâmbio tem lugar neste mês de agosto, na sede da Instituição, em São Paulo, onde todas as companhias contempladas compartilharão suas experiências e obras.

Texto de Sheila Campos.


O 2º encontro presencial entre a ciateatroautonomo e o Núcleo de Pesquisa Resta Pouco a Dizer aconteceu em Brasília no dia 17 de julho de 2011, um domingo de sol.  O evento ocupou dois espaços da Faculdade Dulcina de Moraes.

Após o 1º encontro, no Rio de Janeiro, decidimos dar continuidade à proposição inicial: partir do romance “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márques.

A sessão de trabalho da ciateatroautonomo aconteceu em um estúdio fotográfico. Parte do espaço foi pintada de branco (uma acertada decisão dos Irmãos Adriano e Fernando Guimarães) e a outra parte permaneceu preta. Um projetor foi instalado  no teto do estúdio. Sobre o corpo nu de um ator (Rossini Vianna), foram projetadas imagens de outros dois corpos nus.

Do lado de fora, o participante recebia um dispositivo digital com uma história anônima gravada, e, após ler as orientações, entrava na sala e acionava o dispositivo. No início, os participantes entravam em grupo (9 pessoas), mas na medida em que cada um ouvia sua história e se retirava do recinto (para aguardar ou para buscar outra história e retornar à sala), a semântica do espaço e a relação entre as pessoas que participavam do evento ganhavam outras possibilidades de sentido.

A visitação durou pouco mais de uma hora.

Após o evento, tomamos um café e nos sentamos para conversar. Constatamos que a partir do processo iniciado no 1º encontro, no Rio, agregaram-se outras referências aos nossos trabalhos, que ganharam mais vozes, criando novos desdobramentos.

Durante a conversa, cada qual fez uma digressão acerca do percurso de seus trabalhos, e alguns aspectos foram ressaltados e discutidos: a incidência dos acasos durante os processos; o exercício de apropriação dos materiais artísticos e/ou documentais, evitando as formalidades ou mimeses; o distanciamento como um procedimento que re-perspectiva a realidade; o homem inserido num mundo em constante mutação; o que emerge das relações entre as singularidades de um acontecimento artístico, etc.

 

O 2º encontro presencial seguiu as seguintes orientações, fixadas na entrada do ambiente de encenação:

 

Este é mais um estudo sobre ambientes cênicos (“sem título”), desenvolvido pela ciateatroautonomo, dentro do Projeto de intercâmbio com Irmãos Guimarães/Núcleo de Pesquisa Resta Pouco a Dizer, a partir do romance “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez.

- Cada espectador recebe um dispositivo com um arquivo de áudio, a ser ouvido ao entrar na sala;

- A ação tem a duração do arquivo de áudio (aproximadamente cinco minutos);

- Concluído o áudio, solicita-se que o espectador não permaneça por muito mais tempo na sala;

- Cada dispositivo contém um arquivo distinto; caso o espectador se interesse em conhecer outros arquivos, deve repetir o processo, ou seja, receber outro dispositivo, adentrar a sala e permanecer por um tempo não muito maior do que o tempo de duração do áudio.

 

Excerto do romance “Cem Anos de Solidão”:

De repente – quando o luto já existia há tanto tempo que já se tinha retomado as sessões de ponto de cruz – alguém empurrou a porta da rua às duas da tarde, no silêncio mortal do calor, e as colunas estremeceram com tal força nos cimentos que Amaranta e suas amigas que bordavam na varanda, Rebeca que chupava o dedo no quarto, Úrsula na cozinha, Aureliano na oficina e até José Arcádio Buendía sob o castanheiro solitário tiveram a impressão de que um tremor de terra estava desmontando a casa. Chegava um homem descomunal. Os seus ombros quadrados mal cabiam nas portas. Trazia uma medalhinha da Virgem dos Remédios pendurada no pescoço de buffalo, os braços e o peito completamente bordados de tatuagens enigmaticas, e na munheca direita o apertado bracelete de cobre dos niños-en-cruz*. Tinha o couro curtido pelo sal da interpérie, o cabelo curto e aparado como a crina de uma mula, as mandíbulas férreas e o olhar triste. Usava um cinturão duas vezes mais largo que a barrigueira de um cavalo, botas com polainas e esporas, os saltos reforçados com chapinhas de metal, e a sua presença dava a impressão trepidante de um abalo sísmico. Atravessou a sala de visitas e a sala de estar, carregando na mão uns alforges meio arrebentados, e apareceu como um trovão na varanda das begonias, onde Amaranta e suas amigas estavam paralisadas, com as agulhas no ar. “Olá”, disse a ele a assustada Rebeca, que o viu passar pela porta do quarto. “Olá”, disse a Aureliano, que estava com os cinco sentidos alerta na mesa de ourivesaria. Não se entreteve com ninguém. Foi diretamente para a cozinha, e ali parou pela primeira vez, ao fim de uma viagem que tinha começado do outro lado do mundo. “Olá”, disse. Úrsula ficou uma fração de Segundo com a boca aberta, olhou-o nos olhos, lançou um grito e pulou no pescoço dele gritando e chorando de alegria. Era José Arcádio. Voltava tão pobre como tinha ido, a ponto de Úrsula ter de lhe dar dois pesos para pagar o aluguel do cavalo. Falava o espanhol misturado com gíria de marinheiros. Perguntaram-lhe onde havia estado, e respondeu: “Por aí.” Pendurou a rede no quarto que lhe designaram e dormiu três dias.

*Explicação do autor à tradutora: “Segundo uma lenda popular, alguns homens fazem abrir o pulso e ali meter uma pequena cruz especial fechando-o depois com uma pulseira de ferro ou cobre. Isto, Segundo a lenda, lhes dá uma força extraordinária”.

Uma vez mais gostaríamos de agradecer o carinho com que fomos recebidos em Brasília pelo Núcleo de Pesquisa Resta Pouco a Dizer, bem como o prazer de compartilharmos, através deste projeto, experiências, ideias e pensamentos.

 

 

 

 

 

 

 

 


Segundo Encontro Presencial: Brasília!


Relatos de um processo – Brasília, mês de abril

a provocação

“A ciateatroautônomo vem, nos últimos anos, mais especificamente a partir de “nu de mim mesmo”, trabalhando sobre a possibilidade da constituição de “lugares”, ou seja, da instalação de territórios afetivos aos quais a cena dá acesso. Na “série 21.”, por exemplo, trabalho mais recente da companhia, tais possibilidades se davam ora a partir da proposta de construção de uma cidade imaginária por intermédio do cruzamento dos registros pessoais levados pelos espectadores (…); ora através da invenção de uma memória – independentemente de seu aspecto ficcional – que era provisoriamente atribuída a um percurso urbano. Nessa direção, a ciateatroautônomo reencontrou o romance 100 Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marquez. Esta obra constrói um “lugar” de múltiplas afecções – tempos, espaços, diferenças, afetos. Nossa proposta é: que sejam eleitas alguma(s) das afecção(ões) presente(s) na obra, tais que possa(m) constituir “lugares”, e que com isso seja produzido o material.”

Dias depois outro e-mail, complementando:

“Ah, esqueci: seria legal, de certo modo, o material que vocês produzirem conter alguma “contaminação” do nosso trabalho.Nós, por aqui, tentaremos nos “apropriar”, em alguma medida, das construções de vocês.”

trechos extraídos do email encaminhado pela CIA DE TEATRO AUTÔNOMO para desenvolvimento da primeira provocação.

A partir dessa provocação, o grupo brasiliense Irmãos Guimarães elegeu um pequeno trecho do livro: o episódio que dá relevo à chegada de Rebeca que traz a Macondo a doença do sono. A consequência dessa doença é a gradativa perda de memória.

Contribuição Marquez

o trecho escolhido

“Foi Aureliano quem concebeu a fórmula que havia de defendê-los, durante vários meses, das evasões da memória. Descobriu-a por acaso. (…) Um dia, estava procurando a pequena bigorna que utilizava para laminar os metais, e não se lembrou do seu nome. Seu pai lhe disse: tás. Aureliano escreveu o nome num papel que pregou com cola na base da bigorna: tás. Assim, ficou certo de não esquecê-lo no futuro. (…) Mas poucos dias depois descobriu que tinha dificuldade de se lembrar de quase todas as coisas do laboratório. Então marcou com o nome respectivo, de modo que bastava ler a inscrição para identificá-las. Quando seu pai lhe comunicou o seu pavor por ter-se esquecido até dos fatos mais impressionantes de sua infância, Aureliano lhe explicou o método, e José Arcádio Buendía o pôs em prática para toda a casa e mais tarde o impôs a todo o povoado. Com pincel cheio de tinta, marcou cada coisa com o seu nome: mesa, cadeira, relógio, porta, parede, cama, panela. Foi ao curral e marcou os animais e plantas: vaca, cabrito, porco, galinha, aipim, bananeira. Pouco a pouco, estudando as infinitas possibilidades do esquecimento, percebeu que podia chegar um dia em que se reconhecessem as coisas pelas suas inscrições, mas não se recordasse a sua utilidade. Então foi mais explícito. O letreiro que pendurou no cachaço da vaca era uma amostra exemplar da forma pela qual os habitantes de Macondo estavam dispostos a lutar contra o esquecimento: Esta é a vaca, tem-se que ordenhá-la todas as manhãs para que se produza o leite e o leite é preciso ferver para misturá-lo com o café e fazer café com leite. Assim, continuaram vivendo numa realidade escorregadia, momentaneamente capturada pelas palavras, mas que haveria de fugir sem remédio quando esquecessem os valores da letra escrita”.

O Processo: proposicões,desvios e retomadas

o mês de abril

Após retomar a leitura de Marquez – motivador de pesquisas anteriores – Adriano sugere ao grupo o fragmento da insônia de Macondo; a partir dele, os intérpretes deveriam criar, individualmente, uma proposta pensando na “contaminação” possível pela ciateatroautônomo em seu discurso criativo. O grupo brasiliense, nas cenas apresentadas trouxe elementos muito pessoais, íntimos, focados na percepção de pontencialidade do depoimento pessoal à cena.

Sem quaisquer preocupações com uma dramaturgia acabada, uma segunda etapa foi pautada por estímulos dados pelo diretor, que acaba por se aproveitar dos traços comuns apresentados pelos atores em suas cenas, como a latente tentativa de retenção e catalogação da memória. Para instigar a construção de uma “biblioteca afetiva”, as investigações foram estimuladas por questões como aquilo que me serve de lembrança e como a perda da memória afeta meu cotidiano; A partir disso, o grupo desenvolve uma série de improvisos sobre a escuta do espaço, os estágios do esquecimento, chegando, por fim, as relações e fronteiras do outro em processo de apagamento.

Nessa etapa, aconteceram várias descobertas e abandonos. Como a proposta era com uma dramaturgia aberta, ou uma construção dramatúrgica diária, logo emergiu a necessidade de fechar, de definir uma cena ou uma situação dramática acabada, o que, àquela altura, interessava menos. Apresentar uma cena dramática parecia ao grupo menos desafiador naquele momento do que realmente expor a experiência. Então, assumida a mudança, os criadores revisitaram as primeiras propostas de cena realizadas no começo do trabalho tendo definido enfim como objeto criativo o processo.

As propostas

Cartografia

O próprio corpo como um quebra-cabeça gigante com minúsculas (e infinitas) peças; todas deviam ser nomeadas. Cada centímetro, cada ponto, cada cisco, cada célula traz uma informação e esta informação deve ser catalogada, registrada. Munido de cinco blocos de post-its (duas mil folhas) e uma caneta hidrocor preta, o trabalho era minucioso.

Primeiro, o óbvio… O nome: “Isto é uma camiseta”, “esta é a cabeça”, “pé”, “mão”, “calça”, “perna”, “pelos”, “suor”… É o que é! Como começam os personagens de Cem Anos de Solidão.

Em seguida, as informações adicionais, porém evidentes: “A camiseta é cinza”, “a calça é feita de jeans”, “este é o pé esquerdo”, “a perna se divide em canela, joelho e coxa”. A função, a cor, o material, a textura, o tamanho.

Com o passar do tempo, os dados foram ficando cada vez mais particulares: “A camiseta é cinza, mas é emprestada”, “a calça jeans foi um presente da mãe”, “este é o pé esquerdo porque o outro é o direito”. As informações foram se tornando menos objetivas e mais íntimas. A história por trás de cada cicatriz e tatuagem, o cheiro da camiseta emprestada, a recordação de que o cabelo era cinza como a camiseta, da dificuldade de saber qual é direita e qual é esquerda, de que a mancha branca era por falta de sol quando criança, como é comum esbarrar com o cotovelo, o momento em que surgiu a ideia de usar piercing, por quem o coração bate… Todos os dados. Dos mais superficiais aos mais profundos. Dos mais nítidos aos menos claros. O objetivo e o subjetivo. A memória real e a inventada. As marcas da infância, da adolescência, da vida adulta. As piadas internas. Os traumas. O quase daltonismo… Nada foi ignorado.

Não devia haver um espaço em branco. O corpo precisava ser inteiramente mapeado, por dentro e por fora. De cima a baixo. Como uma “biblioteca ambulante”. Impossível! Os post-its se descolam, quase que imediatamente, por causa do esforço que provoca suor que, em contato com a cola, não deixa que ele permaneça pregado. Quanto mais eu grudava, mais me esforçava, mais suava, menos eles grudavam. Impossível! Não havia como reter todas as informações, nem as recordações… O tempo as apaga, a cola não gruda… Era um Sísifo das recordações. Diego de León

Sonho?

A idéia do sonho como experiência de fluxo não linear e de cotidiano desorganizado estimularam o conteúdo criativo desta cena, vindo da discussão da cidade de Macondo e a “peste da insônia” trazida pela personagem Rebeca no clássico de Gabriel Garcia Marquez, Cem anos de Solidão.

Elegi um sonho breve e perturbador que tive há alguns meses, algo entre fevereiro e abril, não me lembro, onde a morte e minha rede de relações são postas com crueza e impacto; as lembranças que tenho são bastante dispersas com pormenores que celebram o episódio. Eu, entre amigos e cachorros, pedaços diferentes de uma história, o real e uma memória inventada, latidos que figuravam uma armadilha: a necessidade plural da minha morte. Personagem partido – resto e consciência –  um pedaço de carne que insistia em circular no mesmo eixo de tentativa, a reversão da narrativa, a sobrevivência.

No primeiro exercício de cena, peguei a câmera fotográfica velha de casa que pouco uso. Tive necessidade de registrar tudo; o lugar e as pessoas na sala de ensaio enquanto narrava o meu sonho. Tinha ali, uma feroz tentativa de registrar a memória do lugar e uma resistência de reter o instante, um lugar ou espaço que pudesse me reconhecer, algum vestígio que comportasse minha memória, a possibilidade de resistir. Usei meu sonho como incômodo; a partir desse material do inconsciente, encontrei um elo junto à perda de memória, as lacunas de convivência com o rastro, que escapam à narrativa de relações e afetos complexos na construção de uma identidade. Nesse contexto, onde a memória não tem dono, é retomada por associação irregular, há impacto involuntário no humano processual dando lugar a um cotidiano ligado à estrutura do fragmento.

Adriano propôs a partir do meu sonho a construção de material paralelo representando a digestão do outro sobre a mesma narrativa, o outro contaminado, uma terceira versão. A partir dessa proposta, foi organizada uma sequência de imagens por Diego como anexo complementar à cena, ampliando a experiência de criação.

Concluído o nosso “abril”, um mês de exercícios, tentativas, desistências e retomadas desse corpo coletivo, cheguei à cena final. Um recorte minimalista, onde sonho é sonho;  nada tão claro do que sua narrativa crua em plataforma audiovisual –  o mínimo, íntimo, é gerador de potência como o sigilo do inconsciente. Entre indas e vindas, enfim o depoimento. Michelly Scanzi

Escrita que não se lê

A proposta da cena do giz surgiu a partir da provocação daquilo que eu não gostaria de esquecer. Partindo da premissa de que perderia todas as vivências, todas as experiências, a proposta foi contar o máximo de lembranças e imagens da minha vida, para que, nos momentos de esquecimento, alguém pudesse me auxiliar, conectar-me novamente ao mundo real. Com essa idéia, a proposta foi justamente lembrar o máximo de fatos vividos ao longo desses 26 anos, anotando-os numa parede branca, numa espécie de grande diário onde, na medida em que eu escrevia, meu esquecimento já se abatia, tornando tudo branco e incompreensível aos olhos. Meu registro? Um nada. Leandro Menezes

Terceira Escuta

Minha primeira proposta tensionava idéias muito pessoais em relação à perda da memória. De um lado um desejo imenso de reter minha história, de outro a certeza de que nenhum método seria capaz de abarcar (daria conta das) minhas experiências. Juntei em uma caixa alguns objetos pessoais de valor puramente emocional e contava a um gravador o passado de cada um, mas, ao final, o que me restava como áudio era um silencio que tornava aquele item uma mera bugiganga digna de lixo. Já na etapa das improvisações diárias, percebemos que minha relação com a perda da memória, com o espaço e com os outros, tendia a criação de um universo particular, introspectivo, ávido por encontrar naquela situação uma maneira de expressar artística e criativamente minhas angustias. Interrompido esse processo, portanto, e ao retornar às cenas iniciais, Adriano me propôs um caminho diferente: manter uma espécie de “personagem” que foi se configurando durante minhas improvisações e apresentar um material artístico que fosse resultado dessa convivência diária com os outros “desmemoriados”. Porém, no dia em que eu apresentaria essa idéia, Adriano me chega com outra proposta. Na noite anterior, ele assistiu a um vídeo no youtube, uma entrevista com a performer Angelica Liddell que falava de uma maneira extremamente pessoal, quase constrangedora, do próprio trabalho. Assim, Adriano lançou-me o desafio: por que apropriar-se desse discurso? Daí por diante esse depoimento se tornou meu foco. Partindo da premissa de que fugiríamos de uma tentativa de mimese de Angelica, me apropriei de suas palavras e suas idéias, a fim de perceber como isso reverberaria em mim. Camila Evangelista

Gastronomia do esquecimento

Assim como os habitantes de Macondo que perdiam gradativamente a memória, houve uma  provocação no grupo: qual seria o impacto em suas vidas caso ficassem sabendo que perderiam a memória também. Assim, pensei no que eu poderia fazer para reter em mim as experiências adquiridas durante a minha vida, para que dessa forma escolhesse apenas uma, que seria roteirizada como uma espécie de diário de bordo.

Lembrei-me, então, que gosto muito de comida, não apenas para saciar o apetite, mas como forma de socialização, de afeto, de resposta à ansiedade, à raiva, etc.; enfim, o ato de comer se manifesta em mim de diferentes formas, e sob vários contextos.

Partindo disso, estabeleci uma meta: anotaria cada alimento que eu colocasse na boca, fosse sólido ou líquido, até que me encontrasse com o grupo e tivesse com eles uma última refeição, onde os integrantes poderiam acompanhar cada passo de minha experiência, desde a montagem do prato, até o ato de catalogar cada alimento (seriam distribuídas cópias das anotações anteriores). Por complicações nos horários e compromissos do grupo,a data de apresentação da minha performance mudou duas vezes, totalizando três dias de anotações.

Durante o processo me veio a seguinte pergunta: “Se eu estou perdendo a memória, como posso saber o que é de comer, e o que não é”? Sobre essa questão determinei algumas regras sobre como iria me alimentar ao longo da experiência: saberia o que era azedo, amargo, salgado, doce, líquido, refrescante e sólido. As comidas eram descritas por sua textura, cor e o sabor predominante que permanecia na boca; para os líquidos o mesmo padrão, mudando apenas para refrescante (como no caso da água, por exemplo).

Alguns episódios marcaram minha experiência, como no dia que cheguei em um restaurante self-service e, para não ter dúvida sobre o que comer, copiei as cores do prato de uma mulher magra que estava sentada em um mesa; ou então, quando estava escrevendo no diário de bordo, e vendo o grafite riscar a folha de papel, decidi comer o grafite e sentir seu sabor, para em seguida ficar impressionada ao ver que minha boca havia ficado preta;  outro dia,  enquanto esperava por alguém, vi um pedaço de graveto, e ao mastigá-lo  me arrependi de sentir a textura áspera em minha língua.

Ao longo dos dias, notei que o que me chamava a atenção eram as cores vibrantes  das comidas e a montagem dos pratos. Foi quando percebi que não ingeria quase nada na cor branca; pensando sobre essa cor, estabeleci um novo objetivo: a apresentação da performance seria comer algo branco, que estivesse na minha casa, naquele dia precisamente. No entanto, quando fui procurar, não tinha nada branco, além do Coador de Café Melita, que foi cortado em pedaços pequenos (para facilitar a mastigação), e servido em prato fundo, com garfo e faca. Para acompanhar a degustação, água gelada. Valéria Rocha


1º Encontro Presencial – diário

29 de abril, Studio Stanislavski, Rio de Janeiro

Os  Irmaõs Guimarães / Núcleo Resta pouco a dizer chega ao espaço cedo para preparar sua sessão de trabalho. Os diretores, Adriano e Fernando Guimarães, e outros integrantes do núcleo estão presentes. Enquanto preparam o espaço, aguardamos no andar de cima: além dos integrantes da ciateatroautônomo, amigos, colegas de trabalho e profissionais de dança, artes visuais e teatro.

Uma vez preparado o espaço, iniciamos uma conversa preliminar, onde os diretores expõem, de modo breve e sucinto, que o que vão apresentar é o registro do trabalho realizado por eles no último mês em Brasília a partir da “provocação” proposta pela ciateatroautônomo: a apropriação do romance “Cem anos de Solidão”, de Gabriel Garcia Marquez, como mote central para o desenvolvimento de “ações”.

Ao adentrarmos a sala nos deparamos com uma mesa sobre a qual está exposta uma espécie de diário de trabalho: um arquivo de ações – textos, fotos, vídeos do material usado como pré-texto referencial para a elaboração das mesmas. Além disso, vemos – num monitor maior no centro da mesa – as ações propriamente ditas, porém sem áudio.

Após algum tempo, durante o qual os presentes têm a oportunidade de tomar contato direto com o material exposto (inclusive com um exemplar de “Cem Anos de Solidão” aberto na página onde é relatado como os habitantes de Macondo inventaram um modo muito específico de dar nome às coisas), somos convidados a assistir aos vídeos das ações desenvolvidas pelo núcleo de trabalho, agora com áudio.

O que vemos então são trabalhos desenvolvidos por cada um dos integrantes do núcleo. Todos têm em comum a questão  da memóri/esquecimento, do tempo, do sonho e da condição humana e suas possibilidades de apreensão e nominação do mundo.

Após a sessão de trabalho, sentamos para conversar sobre o que acabamos de ver. Além de questões mais diretamente concernentes aos trabalhos apresentados, discutimos diversos aspectos referentes aos modos de produção dos Irmãos Guimarães / Núcleo Resta Pouco a Dizer. Um dos mais relevantes é como a companhia opera no sentido de fazer a intersecção entre a cena e as artes visuais, já que, neste caso, atua-se numa zona de fronteira que, embora própria da arte contemporânea, é ainda pouco explorada na cena teatral.           

30 de abril, Studio Stanislavski, Rio de Janeiro

Hoje é o dia da ciateatroautônomo – organizadora deste primeiro encontro – apresentar sua sessão de trabalho.

Chegamos cedo no Studio Stanislavski (gentilmente cedido para a realização do evento por Celina Sodré, a quem agradecemos) para preparar nosso espaço.  

Apresentamos uma ação (realizada com o auxílio luxuoso de diversos amigos e colaboradores) a partir da performance da artista plástica carioca Valéria Medeiros – Chuva de Nanquim e de outros elementos e cruzamentos propostos por nós.

Sobre um plástico preto com a dimensão da sala vê-se uma série de montículos de farinha de trigo, dispostos em linhas. De um dos lados, uma mulher nua, com o corpo recoberto por farinha, declina os nomes das mulheres na ordem em que aparecem na Bíblia, enquanto um homem limpa seu corpo. Paralela a esta ação, mulheres adentram ao espaço, uma a uma, ajoelham-se e afundam seus rostos nos montículos de farinha, deixando assim suas máscaras nos mesmos, em baixo relevo. Quando a última mulher deixa o espaço, o homem que limpa o corpo da mulher sai, deixando-a sozinha. A mulher prossegue falando nomes de mulheres. Entra um outro homem com um grande tubo nas mãos, tubo este ligado a uma máquina. A máquina é acionada; do tubo sopra um vento forte, o que faz os montículos de farinha se desfazerem parcialmente. A última mulher deixa o espaço.

                                                                                                                                                                                                                                   Fotos de Guga Melgar

Depois da ação, nos sentamos para conversar.

Falamos sobre a ação apresentada e de que modos nos deixamos atravessar por “Cem Anos de Solidão” e discutimos um sem número de considerações relativas ao nosso ofício. Os temas mais discutidos (certamente por serem comum às duas companhias) é como atuamos no sentido de dar continuidade aos nossos trabalhos, a questão das políticas culturais e de nossas relações com os poderes institucionais, a questão do público e do tipo de recepção que o trabalho que realizamos enfrenta.

Para além de toda esta objetividade, precisamos declarar que foi com grande satisfação que realizamos este primeiro encontro, e que nos sentimos inteiramente presenteados pela atenção, o prazer, a generosidade, a seriedade, dedicação e o carinho com que os IrmãosGuimarães / Núcleo Resta Pouco a Dizer, capitaneada pelos irmãos Adriano e Fernando Guimarães, realizou sua sessão de trabalho e, com idêntico espírito, recebeu a nossa.

Agradecemos aos integrantes de IrmãosGuimarães / Núcleo Resta Pouco a Dizer, bem como aos amigos e colegas de trabalho que nos ajudaram a realizar este evento na cidade do Rio de Janeiro. Obrigado a todos!


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